1 de fev de 2011

Olhos de criança

De poucos dons, todos continuam suspirando. Abandonaram qualquer rastro de propósito e empilharam livros empoeirados sob pedaços de consciência. Cada vestígio, cada busca, cada corrida e cada ameaça, tudo se tornou guerra antes mesmo de terem se acostumado - respirar toma muito tempo. Onde está aquele sentimento? Entre chicletes pisoteados em calçadas velhas e sujas, no vento empoeirado e no calor sufocante com aroma de dióxido de carbono... Havia futuro, havia prosperidade, havia dúvida, havia sonho... O cinza pinta tão bem sua falta de fé. Cigarros, frituras, criança chorando e a espera pelo final de semana.

Sangue, areia, aventuras e trilhas por entre a grama - o árbitro arbitrário dos hábitos. Gravata preta, café passado e dentes amarelos. Barrigas gordas presas por cintos de couro, carteiras coagulantes... Medo, tesouras - ponteiros apontando seu caminho. Automatizados, frios e risonho; ingerindo doenças, apreendendo moralidades.

Abandono, olhos de vidros, vagalumes por entre pilhas de lixo - você pôs aquela borboleta preta em um pote de vidro e a viu definhar, curioso. Plástico contra seus polegares, bolhas nos pés e metal frio entre seus dedos... Suas falanges são mera lembrança do que costumavam ser... você esqueceu disso e nem lembra quando. 

Montar castelos - domingo de manhã. Por mil dias eles estariam lá, poeira e ferrugem deram nome ao esquecido e tomaram-no para dançar. Resgate: velhas fotos amareladas de sorrisos brancos, conselhos de fantasias, chuva e murros na parede. 

Domingo não vem, domingo é igual - é a mesma coisa, e sempre foi - igual. Fortaleza. 

Rodas, reflexos no vidro: rostos medonhos aguardando esperança. Inveja, sonolência e jornal. Aguardando sua vez, esperando que os levem, ruminando os segundos, decorando deveres, revendo o passado, ignorando. Armações encardidas, brincos de pérolas e babados. Mãos trêmulas e lágrimas de confusão, rugas oleósas. Pés balançando - arritmados - cadarços soltos, luzes piscantes, salgado. A língua por entre os dentes acariciando a gengiva, doce. 

Espelho, confusão, dúvida... uma careta, sim... É você mesmo.